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O Intelecto Geral: A esquerda e a nova força de trabalho

O capitalismo transforma-se de forma a controlar as crises e a instabilidade e de forma a assegurar o funcionamento dos mecanismos do mercado. Estas transformações envolvem todas as funções da sociedade, instituições, propriedade, trabalho e as diferentes formas de riqueza.

By: Fórum da Esquerda (Left Forum), Finlândia

As economias capitalistas são sistemas dinâmicos que lançam reformas e inovações estruturais, nas quais a história está a ser construída. O capitalismo actual – que designamos de “capitalismo da capacidade de conhecimento”, uma vez que tende a utilizar as capacidades humanas gerais envolvidas no conhecimento, a interacção e a comunicação – baseia-se na transmissão de “informação” e investimentos nos produtores de conhecimento e na sua educação, saúde e cultura, como referiu o economista Robert Boyer no seu livro “O Futuro do Crescimento Económico”.

 

O capitalismo como sistema histórico dinâmico

Cada uma das fases do capitalismo pode ser vista como tendo um sujeito que é diversamente constituído ou produzido com base na sua relação com o modo de produção de riqueza e com as organizações de produção. Este facto condiciona a existência de políticas de esquerda – o sujeito é aquele trabalhador cuja posição na organização da produção é essencial (não uma coincidência nem marginal) em termos de funcionamento do capitalismo e de acumulação de capital. É neste sujeito que o cerne do trabalho se cristaliza na contradição entre capital e trabalho. Daí que, por exemplo, antes da organização da produção do fordismo e do taylorismo, a posição chave fosse ocupada pelo trabalhador com conhecimentos apropriados, estando as diversas fases do esforço presentes no seu trabalho. Assim, os conhecimentos apropriados do trabalhador e a sua experiência pessoal tornaram-no num mestre que trabalhava na sua oficina. Nas relações entre o homem e a máquina, era o homem quem detinha a posição chave, sendo a perícia do trabalhador e a sua capacidade pessoal cruciais para o resultado final.

Por outro lado, a organização taylorista da produção industrial desmembra as capacidades do mestre e cria um trabalhador massificado, que trabalha numa fábrica e tem de se ajustar ao ritmo da linha de montagem. Este trabalho foi separado ao máximo do conhecimento pessoal do trabalhador, o qual lhe foi retirado tanto quanto possível.

No capitalismo do conhecimento-capacidade, que domina agora no Norte, o trabalhador que é mais essencial à produção pode ser chamado de “trabalhador da informação”. Trabalha em “projectos” e tem de adaptar-se às mudanças constantes de tarefas, gabinetes, horários e colegas de trabalho. Com a expressão “trabalhador da informação” não pretendemos designar trabalhadores que tiveram uma educação especializada ou trabalhadores especialmente instruídos. Ela refere-se, sim, a trabalhadores que utilizam as suas rudimentares capacidades de informação para falar, escutar, ver, ler e talvez escrever um pouco, em vez de gastar energia física.

A nosso ver, um dos problemas cruciais da esquerda é a inaptidão para examinar estas mudanças. Em vez disso, opôs o trabalhador massificado ao trabalhador do conhecimento, vendo no primeiro uma base imutável para as suas próprias políticas. Este facto ficou especialmente claro no antagonismo entre o trabalho permanente e o trabalho precário.

O taylorismo aumentou a produtividade do trabalho através da divisão da mão-de-obra, ao mesmo tempo que aumentou o tamanho das fábricas, para beneficiar das economias de escala. A produção estava concentrada em grandes empresas e o crescimento do emprego (dos trabalhadores nas fábricas) correspondeu ao aumento da produção. O pagamento contínuo de salários era uma componente importante do taylorismo, garantindo a disponibilidade e continuidade da força de trabalho – as indústrias de trabalho intensivo em larga escala não podiam basear-se em salários diários e trabalho ocasional. As hierarquias rígidas e a disciplina predominavam, bem como a divisão de tarefas (entre o planeamento e a execução, trabalho intelectual e trabalho indiferenciado) e do trabalho. A divisão do trabalho por géneros era também essencial: a mulher em casa assegura a reprodução, a manutenção e presta cuidados; o homem na fábrica produz e cria nova riqueza. Trata-se de uma sociedade de disciplina, com espaços fechados nos quais todos tinham o seu lugar: as coisas certas no tempo certo, no lugar certo.

Era possível alcançar um novo compromisso entre trabalho e capital, baseado na divisão do retorno do investimento. Por outras palavras, era possível aumentar quer os lucros quer os salários, distribuindo o crescimento da produtividade pelos salários e pelo lucro. O preço do trabalho não estava dependente do nível de desemprego (i.e., no mercado de trabalho), mas da dinâmica da produtividade: se a produtividade aumentasse, o poder de compra dos trabalhadores também teria de aumentar, para que pudesse criar-se uma procura que correspondesse ao aumento da produtividade. O papel do Estado consistia em assegurar o ciclo de crescimento da produção e consumo, agindo não apenas como árbitro nas negociações colectivas de trabalho, mas também através de investimentos em infra-estruturas, bem como de transferências para prestações sociais (educação, habitação e saúde). Em resultado deste compromisso, criaram-se mecanismos de controlo social e económico relativamente estáveis, nos quais se baseava o comportamento dos grupos de interesse económico mais importantes.

 

A crise do fordismo e do taylorismo

Este modelo de crescimento económico tem estado em crise desde os anos setenta. Uma das principais razões é o facto de a produtividade ter deixado de crescer. Por outro lado, o descontentamento das novas gerações em relação à disciplina fabril, a vontade e a oportunidade de estudar (a criação de uma massa de “inteligenzia”) e o aumento dos conflitos sociais fizeram com que fosse mais difícil obter a força de trabalho necessária. Este elemento subjectivo, a vontade das pessoas se afastarem da fábrica e da sua disciplina, desempenhou um papel essencial na transformação do capital. Num certo sentido, isto acabou com a ideia da fábrica ainda antes de os edifícios fabris terem sido demolidos e as cidades industriais terem sido re-localizadas. Tudo isto acontecia à medida que a sociedade ia sendo cada vez mais liderada pela finança e a produção se tornou mais deslocalizada. A desregulação neoliberal é, por sua vez, também o resultado da luta dos trabalhadores que o movimento sindical foi incapaz de controlar dentro dos limites do compromisso fordista.

Um outro factor vital da crise foi o aumento do preço da matéria-prima, especialmente no que se refere à crise do petróleo. A isto podemos juntar a crescente instabilidade dos mercados financeiros internacionais, causada pela desindexação do dólar ao ouro. Além disso, a procura de bens duráveis mostrou sinais de arrefecimento. A produção era pouco diferenciada e muito estandardizada. Esta diminuição da procura internacional devido à volatilidade das relações internacionais (a “Guerra Fria” e a divisão do mundo em duas frentes) ajudou à crise.

Os países capitalistas começaram a criar uma série de estratégias para sistematicamente ultrapassar estes aspectos da crise que emergiam a nível da organização da produção. Estas estratégias têm um efeito directo no compromisso fordista e no funcionamento dos sistemas de regulação, bem como no papel do Estado (por exemplo, na criação de dinheiro) – sendo tudo isto questões a que a esquerda nunca quis reagir.

Em primeiro lugar, podemos referir o desafio que foi colocado ao poder do movimento sindical. O aumento do poder de compra e dos salários dos trabalhadores deixou de ter um efeito positivo na acumulação de capital. Como tal, os sindicatos, enquanto parceiros dos acordos colectivos, perderam o seu papel significativo de garantia e controlo do contínuo aumento dos salários, bem como de fornecedores de mão-de-obra.

Iniciou-se então o recurso ao “outsourcing” em relação às funções económicas que não directamente ligadas ao processo de produção (limpeza, manutenção, publicidade, controlo de qualidade, investigação e desenvolvimento, logística). Além do mais, a flexibilidade da produção podia ter sido utilizada para aumentar as possibilidades de particularização dos produtos; podendo ser feitas novas variações do mesmo produto (era do “individualismo”). Fizeram-se esforços para conciliar a flexibilidade com a mecanização, o que garantiria um crescimento da produção. Além do mais, o trabalho mecânico, inflexível, estandardizado e repetitivo foi substituído por técnicas de informação flexíveis, que foram sendo introduzidas no processo de produção (esta mudança da técnica mecânica para a da informação deu-se entre 1980 e 1990, a idade de ouro do recurso às TIC).

Graças às novas tecnologias de informação, as empresas tornaram-se tecnologicamente mais flexíveis. Tornaram-se menos dependentes de uma tecnologia mecânica em particular. Ao mesmo tempo conseguiram levar a cabo uma produção flexível, com um maior apoio na procura. As grandes empresas começaram a diminuir de tamanho, concentrando-se antes na sua actividade principal. Nesta altura, os novos investimentos já não criam empregos, mas tornam-nos escassos. Criam-se novas formas de relacionamento entre as grandes e as pequenas empresas. O trabalho flexível expande-se e proliferam novos tipos de contratos laborais.

Podem ser identificadas novas formas de flexibilidade laboral. Em primeiro lugar, a flexibilidade expande-se através do desaparecimento dos métodos de trabalho tradicionais e da criação de novas formas de organização. As empresas tendem a recorrer ao outsourcing relativamente a sectores inteiros da sua actividade e a estabelecer também novas formas de trabalho internamente, tais como projectos e equipas, onde a responsabilidade pessoal dos trabalhadores e a sua entrega pessoal desempenham um papel mais importante. Em segundo lugar, existe a criação dos chamados contratos de trabalho “atípicos”, tais como o part time, o contrato a temo certo, o contrato de formação e o período experimental. O período experimental foi uma prática que se espalhou praticamente a todos os grupos ocupacionais, e no período experimental o trabalhador não se encontra protegido pelo contrato. Surgiu também uma miríade de novos tipos de contratos de trabalho, ocupando um lugar entre os postos de trabalho permanentes e a termo certo. Em terceiro lugar, existe um crescente número de trabalhadores independentes que são economicamente dependentes da empresa. Estes novos “empresários”, que gerem as suas empresas durante um ano ou dois, são uma zona cinzenta na investigação sobre as condições de trabalho e nas estatísticas. Não se enquadram nem num contrato permanente nem num contrato a termo certo. Muitas vezes são até subcontratantes de uma outra empresa.

Se estes tipos de contratos variam, também os horários de trabalho são variáveis. Hoje em dia assistimos a uma produção que não pára – ainda que em pequenas empresas. O número de horas extra tem vindo a aumentar. Muitas vezes o trabalhador acaba mesmo por ver toda a sua vida enredada no seu horário de trabalho, uma vez que tem de ter não só uma disponibilidade constante, como estar sempre pronto para “ver só mais uma coisa”. O tempo de permanência no trabalho e o horário de trabalho aumentam, apesar de o tempo passado no posto de trabalho parecer estar a diminuir. Dito de outra forma, o horário de trabalho e o horário de produção diferem, sendo o horário de produção consideravelmente mais longo do que o horário de trabalho, que é contudo a base para o cálculo dos salários.

Os sistemas salariais tornam-se mais flexíveis, com salários definidos “individualmente” e não de acordo com o cargo desempenhado. Ao mesmo tempo, desaparecem dos salários elementos automáticos e que neles estavam incorporados (aumentos salariais, diuturnidades, etc.) e os salários começam a variar. Separam-se os salários do desenvolvimento geral da produtividade e estes acabam por ser cada vez mais definidos de acordo com o interesse da empresa. Assiste-se ainda ao regresso à situação pré-fordista, quando os salários perderam o seu estatuto de variável independente e começaram a ser definidos de acordo com os níveis de desemprego no mercado laboral (em parte devido às mudanças no trabalho). A flexibilidade da mão-de-obra faz com que a importância dos acordos individuais aumente, em prejuízo das negociações colectivas.

O aumento da flexibilidade tem um sem número de efeitos gerais e em parte contraditórios. Por exemplo, desaparecem as ligações entre o crescimento da produção e o emprego e entre o crescimento da produtividade e o rendimento gerado pelo trabalho. A partir do final dos anos setenta, os trabalhadores aperceberam-se de que os novos investimentos não aumentam o emprego. O significado de diversos factores internacionais aumenta à medida que a economia se torna globalizada e, consequentemente, o conceito de Estado-nação fica enfraquecido. Em virtude disso, as políticas keynesianas e do Estado-providência não funcionam e os diversos localismos ganham um maior significado. A distribuição do rendimento em geral torna-se mais obscura. À medida que a comparabilidade do trabalho desaparece, as novas formas de discriminação com base no género e na “raça” são susceptíveis de aumentar. Estes conflitos já não estão ligados tão directamente à “raça”, mas mais a “quem tu és”, ou seja, à personalidade e às oportunidades de vida, de uma forma mais geral.

 

“A segunda geração de trabalho autónomo (independente)”

De acordo com Sergio Bologna e Andrea Fumagalli, podemos chamar a estas novas formas de trabalho a “segunda geração de trabalho autónomo (independente)” e aos trabalhadores “trabalhadores do conhecimento”. Isto porque no seu trabalho são as redes, a interacção e as competências gerais de conhecimento da sociedade que formam a base da subjectividade ou da “cultura” do trabalhador.

A segunda geração de trabalho autónomo – opondo-se ao artífice e ao pequeno empresário tradicional – surge quando a fábrica se transforma numa empresa, ou seja, quando a fábrica enquanto módulo de produção se dissocia dos limites de um tempo e espaço em particular, em consequência de uma nova automatização e de uma redução da força de trabalho. A fábrica estava confinada a um espaço, e o trabalho e a produção decorriam num determinado espaço, num determinado tempo. Por sua vez, a empresa pretende transformar-se num ambiente de produção e de valor económico, que utiliza todo o estado de desenvolvimento da sociedade e todo o tempo de vida das pessoas – os empreendedores. Quando o processo de produção inerente perde o seu significado, quando o trabalho é feito com recurso ao outsourcing de serviços, e quando é cada vez mais difícil prever a procura, a fábrica e a sua tradicional procura de mão de obra são substituídas por um novo tipo de mercado de trabalho. Este consegue juntar serviços “de empresa a empresa” à procura de mão-de-obra por parte da fábrica. As fábricas são substituídas por empresas que se espalham por uma região e pela sociedade, e que estão interligadas e em contacto umas com as outras. Estas empresas – frequentemente empresas de uma ou duas pessoas – oferecem serviços a outras empresas. Estes “empresários”, ou antes, estes trabalhadores, têm longos dias de trabalho e os clientes exploram-nos com cada vez menos obstáculos. Não têm qualquer segurança no emprego, têm uma falta total de representatividade política e têm de se ver a si próprios como pequenos capitalistas de sucesso. O trabalho destes “empresários” não é necessariamente diferente do que costumavam ter, por exemplo, na fábrica, mas agora que são “empresários” têm uma posição formal completamente diferente em relação ao empregador.

Os novos trabalhadores do conhecimento, a segunda geração de trabalhadores independentes, não são uma categoria que surge fruto de uma coincidência, nem são uma excepção no mundo do trabalho. O seu trabalho contém aspectos variados de trabalho independente e de trabalho subordinado. Em vez de uma excepção, este trabalho tem de ser visto como o tipo ideal de trabalho hoje em dia: na realidade é muitas vezes subordinado a um terceiro, mas disfarça-se a si próprio sob a máscara de trabalho independente.

A “intelectualidade” aumenta na segunda geração de trabalho independente, mas o crescimento intelectual não significa que o trabalho requeira mais qualificações ou aptidões especiais. A diferença entre mão-de-obra qualificada de posição forte e a mão-de-obra não qualificada de posição fraca com funções variáveis começa a tornar-se vaga. Em virtude disso, partimos de mercados que se encontravam divididos entre trabalho qualificado e desqualificado, para mercados de trabalho precário. Este facto terá efeitos em todas as categorias da força de trabalho, alterando os contratos de trabalho. O trabalhador autónomo de segunda geração pode ser escolarizado e precário. O trabalho deste tem muitas vezes que ver com as aptidões gerais do conhecimento humano. A intelectualidade e o papel da comunicação são mais visíveis do que nunca e o trabalho consiste muitas vezes no processamento de informação (por exemplo, nas cadeias de serviços). Os “sistemas de informação” têm uma posição chave no trabalho, ou seja, no fluir das redes de informação, nas quais o trabalhador se situa quer dentro quer fora do seu trabalho. Desta forma, o principal papel é desempenhado pela relação entre essa informação (a capacidade de escolher a informação e decidir de que modo a usar) que o trabalhador é capaz de controlar de modo autónomo e a informação “alienada” que apenas requer uma reacção e não é controlada autonomamente. Uma questão crucial de conflito, do ponto de vista do trabalhador, é saber até que ponto ele/ela tem o direito de estar informado acerca das actividades de toda a empresa. É que a quantidade de informação aumenta a sua autonomia e realça os poderes de decisão do próprio trabalhador. Ao mesmo tempo isso pode ser uma enorme vantagem para a empresa, uma vez que o trabalhador fica apto a prever e a partilhar os riscos da empresa.

Particularmente para a esquerda, seria errado ver esta segunda geração de trabalhadores autónomos apenas como uma consequência negativa da subcontratação e da mudança dos modelos empresariais. Se a criação deste tipo de trabalho é alimentada pela necessidade das grandes empresas de tirar partido dos efeitos externos positivos (o aumento da responsabilidade dos trabalhadores pelo processo de produção e a capacidade de partilhar melhor os riscos da empresa e de trabalhar com mais empenho), há que reconhecer, por outro lado, a grande vontade dos trabalhadores de ter autonomia e de controlar a sua própria vida, esculpindo a sua própria personalidade e modo de vida. O sonho de “ser dono de si próprio” e de “ter uma vida melhor do que a que se tem”, o sonho que fazia com que as gerações anteriores poupassem e pusessem os filhos na escola, é também o sonho das novas gerações da classe trabalhadora. Dito de outro modo, a segunda geração de trabalhadores autónomos, ou seja, os trabalhadores do conhecimento, não olha para trás para o paraíso perdido do trabalho assalariado. Para eles, o aumento da autonomia, a possibilidade de agir de forma independente e o seu próprio conhecimento estão no centro das suas aptidões profissionais, ao mesmo tempo que constituem os seus próprios meios de subsistência. Quando se depende de um salário, há que fazer tudo o que o empregador dita; ao mesmo tempo, a tendência dominante na educação é a adequação às necessidades que o mercado de trabalho possa ter no momento.

Se o desenvolvimento e a manutenção das aptidões individuais envolve a participação num sistema de educação que não serve as necessidades do emprego actual, se envolve a manutenção de redes que não podem ser reduzidas às redes necessárias no emprego actual, se envolve a cooperação com o pessoal, por exemplo de uma empresa concorrente, então deve ter-se o direito a tomar tudo isto a cargo. As aptidões pessoais devem ser sempre maiores do que o necessário para o desempenho do emprego actual. Cada tarefa traz consigo a possibilidade de fazer as coisas de forma diferente e não apenas da forma como têm vindo a ser feitas até agora. De outro modo, o trabalho não passa de uma actividade mecanizada e o actor em si mesmo não contribui com nada de si mesmo para o processo. Por outras palavras, o trabalhador tem de ter informação que supere a mera execução de uma instrução simples. A informação do trabalhador, ou estado de actividade livre referido por Marx, torna-se cada vez mais importante para o processo de produção. O novo tipo de trabalho pós-fordista tem necessidade de aptidões e de informação que não pré-existem e que ainda não se encontram codificadas numa máquina; necessita de informação que tem de ser repetidamente criada e continuamente renovada. Temos de ser capazes de responder a esta vontade através de iniciativas políticas concretas.

O empregador interfere cada vez menos com o conteúdo concreto do trabalho, as aptidões e a informação necessária para o desempenhar. O empregador também não controla activamente as fases do trabalho (para quem trabalha em projectos e equipas, o controlo e as ordens vêm do “coordenador de projecto” e de outros colegas que não os detentores do direito expresso a controlar, facto este que torna o controlo horizontal e social). O trabalho e a produtividade tornam-se numa capacidade independente de combinar dados e “recursos” materiais, ferramentas, relações com os demais empregados, informação e aptidões, orientados para um determinado objectivo. Espera-se que o trabalhador seja uma espécie de capitalista que cria toda a organização social da produção, a maquinaria necessária, controlando e gerindo-se a si próprio, de forma a tornar-se num produtor eficiente.

 

A evolução de uma nova subjectividade

A faceta comunicativa do trabalho, a capacidade de trabalhar em equipa, levar os outros em conta, a capacidade de disseminar informação, etc., enquanto bases para uma cooperação produtiva alteram radicalmente a composição interna da empresa. As teorias sobre as empresas e o capital baseiam-se geralmente na ideia de que as empresas requerem três componentes para a produção e os respectivos actores sociais. Estes são o capital, ou seja, o investidor que investe no arranque da empresa, a gestão ou organização do trabalho e da produção e a força de trabalho viva. A empresa é assim uma organização social, um sistema de cooperação. O seu significado está não só na introdução de bens no mercado, mas sim no sucesso que esta possa obter na criação de valor acrescentado através da cooperação e, em especial, da organização do trabalho. Em particular, produz valor acrescentado, tornando a utilização do trabalho mais eficiente, por exemplo, calculando o custo e o preço da reprodução da mão-de-obra. As definições mudam quando o trabalhador se quer definir a si próprio como o organizador dos meios de produção e quando a tarefa capitalista não é a organização social dos meios de produção (a organização do tempo, espaço e funções), mas estas tarefas foram transferidas para o trabalhador e para a sua capacidade de se pôr a si mesmo e aos seus colegas a trabalhar. A multiplicação das formas empresariais e a individualização – e as falácias das estatísticas laborais – bem como as teorias acerca do capital social e humano baseiam-se no facto de que o trabalho se identifica com o capital. À medida que a diferença entre o capital e o trabalho é obscurecida, o capital é especificamente visto como uma pessoa com as suas características, e a pessoa é vista como uma espécie de máquina humana que produz capital; como uma máquina que organiza aptidões e competências, tal como a fábrica e a sua maquinaria costumavam fazer antes. Ao mesmo tempo, os objectivos da educação também mudam – agora em vez de competências específicas, o objectivo é “aumentar as aptidões” ou potencialidades. Não há outra forma de prever as aptidões ou a capacidade de aprendizagem do trabalhador a não ser através da avaliação da personalidade do trabalhador, de saber se ele está ou não disposto a subjugar-se para atingir os objectivos estabelecidos, se é um caso de risco que vai tentar estabelecer as suas próprias regras ou alguém cujas regras estão para além das relacionadas com o seu desempenho laboral. O debate sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho diz-nos alguma coisa sobre isto: as mulheres comprometem-se menos com o trabalho do que os homens porque pensam também na família e nos filhos e por isso aceitam piores condições de trabalho. Ao fim e ao cabo, a entrada das mulheres no mercado de trabalho enfraquece o modelo tradicional de um ganha-pão e introduz a precarização no local de trabalho.

Seguindo Marx, podíamos falar do colapso da lei do valor. Nos Grundrisse, na secção “Contradição entre a fundação da produção burguesa (o valor como medida) e o seu desenvolvimento. Máquinas, etc.”, Marx avança com a ideia de que o conhecimento abstracto, mais do que todo o conhecimento científico, mas não só, está prestes a tornar-se na mais importante força de produção. Para além disso, uma das razões desta mudança é a autonomia do conhecimento e a sua independência da produção de bens.

O conhecimento abstracto substitui o trabalho compartimentado e repetitivo, ou seja, o trabalho industrial na sua forma tradicional. Em virtude disto, o trabalho directamente levado a cabo pelas pessoas – e não só o trabalho mas o mero “desenvolvimento do indivíduo social” e o facto de as pessoas existirem como “corpos sociais” – aparecem como a “grande pedra fundadora da produção e da riqueza”.

Marx fala sobretudo do conhecimento materializado que se transforma em capital fixo e que depois se fossiliza em sistemas de maquinaria automatizados. São “poderes de conhecimento materializados”. Nesta relação Marx usa o termo “intelecto geral” – a compreensão e o intelecto em geral: “O desenvolvimento do capital indica em que medida o saber (Wissen) social geral se tornou numa força directa de produção. Até que ponto, por isso, as condições do processo da vida social em si mesmas ficaram sob o controlo do intelecto geral e se transformaram de acordo com ele. Até que ponto foram produzidos os poderes da produção social, não só sob a forma de conhecimento, mas também como órgãos directos da prática social, do processo da vida real?”. A expressão de Marx “intelecto geral” indica assim a totalidade do conhecimento que forma e pré-organiza o novo centro da produção social. O conhecimento entrou directamente não só no processo de produção, mas também no processo de toda a vida. No entanto, acima de tudo o intelecto geral mostra as capacidades gerais de pensamento e de interacção. Estas são capacidades de conhecimento que formam o verdadeiro centro do capitalismo cognitivo e é também a partir destes conflitos que emerge com o novo capitalismo uma nova “fábrica Putilov”, com os seus novos trabalhadores, capazes de desafiar o capital. Nesta fábrica as máquinas são aquelas com as quais as pessoas sabem, sentem e comunicam, e os seus operadores são corpos humanos que sabem, sentem e comunicam.

A primazia do conhecimento social geral na produção significa que “o roubo do tempo de trabalho alheio, no qual assenta a riqueza actual, surge como uma base miserável em face desta nova”. Por outras palavras, o trabalho na sua “forma directa” deixa de ser a fonte de riqueza e o “valor de mercado deixa de ser a medida do valor de uso”. Ao mesmo tempo, desaparecem as fronteiras entre trabalho e não trabalho, acção e pensamento. Agora “o trabalhador já não introduz uma coisa natural modificada como ligação intermediária entre si mesmo; em vez disso, insere o processo da natureza, transformado num processo industrial enquanto médium entre si mesmo e a natureza inorgânica”.

O desenvolvimento actual altera profundamente a forma como o trabalho tem de ser pensado. Em consequência, há que perguntar: qual é a relação da liderança, gestão e supervisão com o trabalho industrial tradicional, no qual o trabalho se confinava ao tempo e espaço e a tarefas concretas? Agora a auto-organização e a obrigação auto-imposta de trabalhar substituem a organização e gestão da fábrica. Em vez de enfrentar o controlo externo, o trabalhador sente a contradição enquanto luta pelas suas capacidades e tempo. Por outras palavras, são redefinidas as relações entre a independência ou autonomia e subordinação. Isso redefine, por sua vez, a subjectividade política dos “trabalhadores da informação” – ou segunda geração de trabalhadores autónomos – de uma forma que difere da subjectividade das “massas trabalhadoras”.

 

Conclusão

Podemos enumerar sumariamente algumas das características do trabalho autónomo de segunda geração em relação ao tempo e ao espaço. Em nosso entender, estas características afectam ou deviam afectar as políticas de esquerda.

Em primeiro lugar, há a salientar a mudança do espaço de produção ou trabalho. Podemos citar como exemplos desta mudança a necessidade de antecipar alterações da procura, a construção de cadeias de serviços, o recurso ao outsourcing para determinadas funções, a redução geral da dimensão do processo de produção, a possibilidade que as novas tecnologias oferecem de quebrar a sequência cronológica da linha de montagem, e a oportunidade de levar a cabo as várias fases do trabalho de forma simultânea ou aleatória.

A fábrica fragmentou-se numa rede que organiza diversos componentes horizontais e verticais. Hoje em dia podemos falar da ausência de limites espaciais do trabalho. Por exemplo, o recurso ao outsourcing e a reestruturação são formas de fazer com que os serviços de limpeza ou os serviços municipais não sejam dependentes de um lugar em concreto. Existe ainda uma tendência nas empresas para alterar as comunidades laborais em termos de espaço e de organização, através de projectos e trabalho de equipa. Em virtude de todas estas mudanças, torna-se difícil estabelecer onde é que um determinado produto é feito, onde é que o trabalho efectivamente decorre. A ausência de limites espaciais da produção, a quebra com a sua estrutura espacial, manifestadas através desta deslocalização da produção, acabou com grande parte da capacidade do Estado-nação para regular a relação entre a produção e o consumo e as possibilidades que este factor tem de influenciar a distribuição dos rendimentos.

Mais do que isso, a ausência de limites espaciais apagou a divisão entre o local de trabalho e o lar, divisão essa importante na sociedade industrial. A nova relação entre a vida e o trabalho pode ser vista na relação casa-trabalho, em que o trabalho, na sua organização de elementos diferentes e contraditórios, começou a assemelhar-se a trabalho doméstico e em que a organização do tempo de trabalho começou a ser feito dentro do tempo da vida. Ao mesmo tempo, a divisão entre trabalho produtivo e trabalho reprodutivo tornou-se polémica.

A organização do tempo de trabalho e a regulação do dia de trabalho eram uma questão importante no capitalismo industrial. A negociação colectiva tratava das compensações a receber pelo trabalho extraordinário. Hoje em dia o trabalho entra por todos os poros da vida, e o tempo útil de vida confunde-se com o horário de trabalho na educação, auto-aferido. O esfumar dos limites faz parte do próprio trabalho. As funções laborais tornam-se vagas. As pessoas afastam-se de um desempenho laboral concreto e passam a fazer parte de projectos, ocupar-se das cadeias de serviços, processar diferentes tipos de informação e contextos de controlo. O trabalho é feito em equipas e projectos, e dentro destes as funções podem variar.

Um outro elemento da mudança ou da indefinição é a constante mudança de tarefas, espaço e horário de trabalho: a subjectividade do trabalhador varia ou torna-se ambígua. É difícil dizer qual é o verdadeiro actor quando a produção consiste em composições ou esquemas de espaço, tempo, acção e sujeitos (pessoas) que mudam constantemente e que se espalham por toda a sociedade.

Estas mudanças alteram o mercado de trabalho e o campo no qual a política agora tem de agir, estabelecendo em função disso os seus objectivos.

 

 

Bibliografia

Aglietta, Michel: A Theory of Capitalist Regulation: The US Experience. New Left Books, Londres 1979.

Bologna, Sergio & Fumagalli, Andrea: Il lavoro autonomo di seconda generazione.

Scenari del postfordismo in Italia. Feltrinelli, Milan 1997.

Boyer, Robert: The Future of Economic Growth. As New Becomes Old. Edward Elgar Publishing 2004.0

Foucault, Michel: Security, Territory, Population. Lectures at the Collège de France 1977-1978, Palgrave Macmillan 2007.

Marx, Karl: Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy (Rough Draft), Penguin Books, Harmondsworth 1973.

Marx, Karl: Theories of Surplus-Value, Part I, Progress Publishers, Moscow 1963.

 

Este texto é uma tradução de um capítulo do livro “A esquerda à procura de trabalho” (“Left is Looking for Work”, Like Publishing Ltd. 2008, 292 p). O livro é o resultado de um projecto organizado pelo Fórum da Esquerda (Left Forum), na Finlândia, e pela cooperativa de investigação General Intellect.