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UTOPIA – o explosivo potencial do presente

É tempo de nos livrarmos das falsas alternativas que paralisam a política e a tornam aborrecida.

By: Frigga Haug

A sensação de que as coisas não podem continuar como estão é partilhada cada vez por mais gente na Europa. E se querermos ir além de vagos sentimentos (que estão sujeitos a manipulação), é necessário nomear as condições actuais para uma crítica política prudente que não seja apenas a negação dessas condições.

Uma tal negação, fazendo delas medida de todas as coisas, possibilita apenas que essas condições bloqueiem prospectos de novas descobertas. É preciso coragem e inteligência para discriminar esquemas e formular propostas que almejem uma sociedade com liberdade e mudança, já que o zeitgeist (que hoje em dia é mais um espectro do que um espírito) nos condena à pura imanência. As reflexões utópicas, isto é, a consciência de que História tem de ser activa e capaz de agir, têm sido desaprovadas e demitidas, na melhor das hipóteses, como um sonho irrealista.

 

Se lermos os escritos de Frigga Haug, por outro lado, suspendemos a resignação e sentimos uma certa confiança. A reorientação do pensamento marxista e feminista combina teoria com refortalecimento da capacidade das políticas de esquerda, nas quais se volta a colocar o modelo representativo da política. É por essa razão que desenhamos uma mudança fundamental na divisão do trabalho como uma orientação política a longo prazo.

O que pretendemos observar é uma ligação entre as seguintes quatro áreas fundamentais da actividade humana: emprego remunerado, trabalho de reprodução, trabalho cultural e trabalho político. Hoje em dia a organização de sobrevivência, vida, desenvolvimento cultural e actividade pública é dividida em estreitas especializações e circunscreve-se a esferas de competência, que implica um absurdo desperdício de tempo e – acima de tudo – um profundamente injusto estado de coisas que nenhuma pessoa esclarecida que possua a mínima competência ética poderá alguma vez justificar.

 

O conceito compreensivo de justiça, tal como formulado pelas mulheres, assume que cada pessoa pode contribuir com 16 horas diárias para a soma da produtividade social e pode usar este tempo significativamente em blocos de 4 horas cada (entenda-se estes números como guias gerais e não um dogma) para si próprio, para outros e para a comunidade em geral. Isto significa antes de mais reduzir o período de emprego remunerado de todos para 4 horas; para o trabalho de procriação e para a família isto implica uma generalização: tanto os homens como mulheres podem e devem ser capazes de desenvolver as suas competências na sociedade; para o desenvolvimento cultural significa que cada indivíduo terá tempo para desenvolver os seus vários talentos e capacidade para aprender; e quanto à política significa que todos possam participar na formação da sociedade.

A arte da política reside na ligação das quatro áreas, nenhuma delas deve ser efectuada à custa das outras, o que significará uma política mais inclusiva e vidas mais completas.

O esquema geral é baseado no conhecimento de que as relações de género são relações de produção e por isso nenhum sistema de economia política pode ser levado a sério se não tiver em conta este facto. Os argumentos históricos e teóricos têm de ser encontrados no último capítulo, onde se prova, numa fascinante demonstração lógica, que a esquerda sem feminismo não é sustentável – e vice-versa.

 

Towards a Theory of Gender Relations, in: Socialism and Democracy, nº 31, vol 16, winter/spring 2002, p. 33-46

 

 

Sur la théorie des rapports de sexe. in: Actuel Marx, Les rapports sociaux de sexe, No. 30,

2001, pp. 43 – 60

And discussions on the above at the authors website.

Frigga Haug:

Die Vier-in-einem-Perspektive.

Politik von Frauen für eine neue Linke.

Hamburg Argument Verlag 2008,

348 pages, € 19.50 (D)